80 anos!

Quem nos dera a nós embarcar na aeronave do tempo e recuar até 1941. No resguardo insular, juntaríamos à volta de uma mesa o Vasco e José Bensaúde, Augusto Arruda, Augusto Soares de Albergaria e Albano de Freitas da Silva Oliveira e pediríamos o que, há poucos dias, pedimos aos que nos seguem nesta comemoração:

Contem-nos a vossa história com a SATA!   

Os fundadores: Vasco Bensaúde, José Bensaúde, Albano Silva Oliveira, Augusto Albergaria e Dr. Augusto Arruda.

Quase a meio caminho entre a América e a Europa, os Açores continuam a ser um território distante que se divide na realidade própria de nove ilhas. E isso não mudou desde 1941. O Arquipélago não mudou de sítio, porém, ficou mais próximo do resto do Mundo. E era essa a vontade dos fundadores da SATA. Hoje mantemos a tranquilidade de outros tempos e temos tudo o resto. E em parte, a eles o devemos.

Voltar atrás no tempo é possível na ficção, mas não na vida real. Resta-nos, portanto, recorrer aos jornais da época, ler o que foi escrito, demorar-nos nas fotos a preto e branco, falar com quem estudou sobre a vivência de 1941 ou quem terá tido o privilégio de privar com estes empresários do início do século passado.

Entre as pesquisas e os escritos de Fátima Sequeira Dias, Ermelindo Peixoto e Carlos Riley, as notas histórias de Henrique de Aguiar Oliveira Rodrigues e outras digressões pela obra publicada de J. Silva Júnior ou a mais recente publicação “Alto Mar” sobre a história empresarial do grupo Bensaúde, é possível perceber melhor o contexto da época. E, com tanta e tão boa informação, o difícil será não perder a rota do que íamos a contar…

Em 1941, “os Açores possuíam uma população de cerca de 286 854 indivíduos; 51% dos quais a viver na Ilha de São Miguel, 2,7% em Santa Maria e 18,6% na Ilha Terceira, só para mencionar as ilhas com aeroportos. Mais de metade da população trabalhava, então, na agricultura (66% em 1940). O milho era o principal cereal produzido e a base da alimentação nas ilhas. Também se cultivou a vinha, a fava, a batata, a beterraba, o tabaco, o chá e o ananás, sobretudo na Ilha de São Miguel. A pecuária começava a alastrar-se no Arquipélago”. (1) E porque uma coisa leva à outra, à conta das tendências de produção, emergiam pequenas unidades industriais, nomeadamente, as fábricas do álcool, do açúcar, do tabaco, do chá e dos refrigerantes.  

Vista Aérea de Ponta Delgada. Foto produzida entre 1939 e 1940.
Coleção Fotográfica Digital do Instituto Cultural de Ponta Delgada. ( ICPD) (3)
A primeira loja da SATA. Coleção fotográfica Digital do ICPD (3)
Créditos atribuídos a Fotografia Nóbrega Lda.
O interior da primeira loja da SATA. Coleção fotográfica digital do ICPD. Créditos atribuídos a Foto Toste. (3)

Trabalho, faro para o negócio, arrojo e mundividência: os traços que uniam e completavam os fundadores.

Se nos demoramos nas fotografias e nos textos da época, rapidamente nos salta ao espírito o pressuposto estereotipado de que os Açores seriam, em 1941, uma real pasmaceira. E por pasmaceira queremos dizer, literalmente, um lugar sem movimento, sem dinamismo, em suma, um lugar de admiração e de concentração sem propósito. E até podia ser, mas só para alguns!

No léxico de 2021, diríamos antes que a Sociedade Açoreana de Transportes Aéreos foi constituída por uma Task Force multidisciplinar que sofria na pele as agruras de não ter ligações fáceis para sair ou entrar no Arquipélago. Apesar do ritmo aparentemente fleumático que a cidade de Ponta Delgada aparentava ter, não há registos de que estes cinco homens se entregassem ao ócio. Eram sonhadores na dose certa, movidos pela ambição de ver a sua vida empresarial facilitada, e de participar ativamente no desenvolvimento da sua terra natal. Eram homens de capital, de ação e de ambição. Eram gente preparada, que estudou no exterior, tinham formação sólida e método. Não encontrámos as mesmas valências em todos eles e ainda bem. A Task Force era diversa nas competências e, por isso, completava-se.

De Vasco e José Bensaúde, diremos que não é possível falar-se no desenvolvimento económico e social do Arquipélago sem nos depararmos, repetidamente, com o nome da Casa Bensaúde. Onde houvesse falta de um serviço, de algum tipo de mercadoria, ou de modernidade, lá estavam eles. E por isso, o desejo de apetrechar o Arquipélago de ligações ao exterior, não era novo. Com negócios que progrediam em várias geografias, viajar seria um prazer, mas por certo também, uma obrigação. Como seria o caso para Augusto D’Athaíde Corte Real Soares de Albergaria, cuja atividade obrigava a deslocações frequentes para fora do Arquipélago. Mantinha negócios em outras partes do mundo, dedicando-se a atividades diversas. Era um terratenente, um colecionador, negociador, interessado pelo mundo dos negócios.

No que toca a Augusto Arruda, encontramos o seu nome associado a atividades tão diversas quanto o exercício do direito, a montagem da rede telefónica, a municipalização da energia elétrica ou a montagem dos depósitos de óleo para a navegação. O seu nome ficou para sempre associado à produção do ananás. Junto com Albano de Freitas da Silva Oliveira, ficará igualmente ligado ao desenvolvimento do turismo e de inúmeras iniciativas desenvolvidas pela sociedade Terra Nostra. Tinham ambos uma capacidade invulgar para desenvolver boas relações comerciais com todos. Ambos se relacionavam nos meios internacionais ligados à aviação, contactos que cultivaram por inerência das escalas feitas no Aeroporto Marítimo da Horta por pioneiros da aviação como, por exemplo, a Pan American Airways System. Albano de Oliveira foi Cônsul da Suécia e Vice-cônsul do Brasil. Movia-se com toda a naturalidade em ambientes cosmopolitas. Diz-se dele que tinha sempre muito entusiasmo em relação a quase tudo. E isso contagiava todos à sua volta.   

Os detalhes da Fundação da “Sociedade Açoreana de Estudos Aéreos, Limitada”

Sociedade Açoriana de Estudos Aéreos
Arquivo histórico da SATA Air Açores

A criação da Sociedade Açoreana de Estudos Aéreos ocorre a 21 de agosto de 1941. O capital social era de 24 contos, quantia dividida por quotas iguais no valor de 4800 mil escudos. O objeto desta sociedade era estudar as possibilidades de ligação, por via aérea, entre as ilhas e destas com Lisboa e ainda diligenciar a concessão, do governo português, da respetiva exploração do espaço aéreo insular. (1) A sede da empresa encontrava-se em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel. Um ano depois da constituição, a 2 de agosto de 1942, o jornal “Correio dos Açores”, noticiava a “grande iniciativa”.

Mas o processo esteve longe de ser célere e fácil. A 28 de fevereiro de 1947, o mesmo jornal publicou um artigo de Dinis da Luz que afirma ter sido “necessário quatro longos anos de esforço, diligencias, lutas e incertezas. Foi necessário que uma vontade excelente vencesse inúmeros grandes obstáculos. E pequeninos, também. Que são quase sempre os mais difíceis de vencer”. (2)

A descolagem do primeiro voo da SATA foi o culminar de um processo que exigiu, então, o que se classificou de “vontade excelente”! Um tipo de vontade que torna possível transformar os sonhos em realidade, o mesmo que faz com a realidade persista no tempo.

Hoje, depois de tantas histórias, subscrevemos o que publicou o Barão Cristiano de Caters, em 1929, no Correio dos Açores de 8 de Agosto em artigo sob o título : “Os Açores estão na moda sendo agora o rendez-vous dos Aviadores “descreveu a sua estadia nas ilhas: “um paraíso quase desconhecido que muitos franceses não sabem bem onde fica, mas que, graças às travessias aéreas do oceano, que se servem desta rota, onde o Arquipélago oferecendo-se como única escala possível entre o Novo e o Velho Mundo, tem adquirido fama ruidosa, que cresce a cada ano”. (2)

Se fosse possível voltar atrás no tempo, convidaríamos o Barão de Caters a embarcar connosco num voo direto da Azores Airlines, que liga Paris a Ponta Delgada duas a três vezes por semana, a ver o que diria deste caminho que fizemos até aqui.

Afinal, a “vontade excelente” dos nossos fundadores ainda vive em nós!  

Referencias bibliográficas citadas:

(1)“Diário de Navegação” de Fátima Sequeira Dias. Edição comemorativa. Edição Particular da SATA Air Açores.

(2) “Notas Históricas II” de Henrique de Aguiar Oliveira Rodrigues. Edição de Autor.

(3) Arquivo Fotográfico Digital do Instituto Cultural de Ponta Delgada.

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