“Mesmo depois de viver em cidades como Nova Iorque ou Londres, é à natureza que regresso!”

Natural de São Miguel, nos Açores, Manuel Lima sempre viu o mundo como um lugar a explorar e a compreender. Esse impulso levou-o a sair da sua zona de conforto vezes sem conta: deixou Lisboa para estudar na Escandinávia, trocou um emprego estável em Londres por seis meses dedicados ao seu primeiro livro e recomeçou em cidades como Nova Iorque.
Hoje, vive em Lisboa, é uma das personalidades mais influentes mundialmente do design de informação e lidera a equipa de design da Interos.ai, uma startup americana que mapeia redes globais de abastecimento, analisando riscos financeiros, políticos e ambientais em tempo real. O seu trabalho vive no cruzamento entre tecnologia, visualização e responsabilidade. Autor de quatro livros e conferencista internacional, continua guiado pela mesma inquietação de sempre: a vontade de dar sentido ao que nos rodeia — e fazer do design uma ponte entre dados, conhecimento e sabedoria.
“O designer de informação tem uma enorme responsabilidade: transformar excesso de dados em clareza — com ética e transparência.”
De que forma crescer nos Açores influenciou a sua forma de ver e representar o mundo?
Teve um impacto enorme. Crescer nos Açores é crescer rodeado por uma natureza deslumbrante — e isso molda-nos, mesmo sem darmos conta. Mais tarde, fui viver para grandes cidades, mas só com o tempo percebi o quanto essa ligação à natureza influenciou a minha forma de ver o mundo.
Outra marca forte foi a paixão por mapas, que começou na infância. O meu pai tinha uma grande coleção, e lembro-me de passar um verão inteiro a organizá-la. Acho que foi aí que nasceu o meu fascínio por taxonomias, por tornar o complexo mais simples. O mar, para mim, nunca foi uma fronteira — era um convite, uma promessa de descoberta.
Há alguma memória da infância nos Açores que leve consigo para onde quer que vá?
Sim, o contacto com a natureza, sem dúvida. Crescer nos Açores é estar rodeado por uma natureza imensa, viva, impossível de ignorar.
Mesmo após ter vivido em grandes cidades como Londres e Nova Iorque, essa ligação nunca desapareceu. Pelo contrário: tornou-se mais consciente — e transformou-se numa prática. Hoje pratico meditação quase diariamente, muitas vezes em ligação com a natureza. Quando volto à ilha e medito em frente ao mar, é como encher os pulmões de luz.
Sinto esse apelo constante às origens, ao mar, ao verde, à tranquilidade. É um regresso, mas também uma base. Isso faz parte de quem sou — como pessoa e como profissional.

“O design de informação é a ponte entre dados, conhecimento — e sabedoria.”
Qual foi o projeto mais desafiador ou marcante da sua carreira — e porquê?
Sem dúvida, o meu primeiro livro, Visual Complexity. Nunca tinha escrito um livro, e foi um mergulho num território totalmente novo. Tinha um bom emprego em Londres, na Nokia, mas após dar uma palestra na TED Global, em Oxford, voltei no comboio com uma decisão tomada: ia sair da empresa e dedicar-me ao livro. Na segunda-feira seguinte, apresentei a demissão.
Foram seis meses intensos, cheios de dúvidas — mas profundamente transformadores.
O livro abriu-me portas para tudo o que se seguiu: novos projetos, conferências, colaborações.
Foi também aí que percebi algo que tem guiado o meu percurso até hoje: “Crescemos quando nos atrevemos a sair da zona de conforto.” Sempre que me senti demasiado confortável, soube que era hora de mudar. E foi nas mudanças — às vezes dolorosas — que mais cresci.

Qual considera ser, hoje, a maior responsabilidade ética de um designer de informação?
Vivemos rodeados de dados como nunca, mas muitas pessoas sentem-se mais desinformadas do que informadas. O designer de informação tem a responsabilidade de transformar esse excesso em algo claro, útil e verdadeiro.
No meu livro mais recente, falo da ética do design e da nossa responsabilidade enquanto criadores da cultura visual e física que nos rodeia. Cresci nos Açores, rodeado de natureza, e essa experiência moldou a minha consciência ecológica.
Acredito que sustentabilidade e psicologia deviam estar no centro da formação em design — mas continuam ausentes, o que é uma falha grave.
Também é essencial sermos transparentes no uso dos dados: explicar de onde vêm, como foram tratados, e evitar manipulações.
Falta-nos um código deontológico claro, como já existe no jornalismo ou na medicina. O design, mais do que estética, é responsabilidade.
A inteligência artificial está a transformar o design. Para si, é mais uma aliada ou um obstáculo?
Vejo-a como uma aliada. Tal como a fotografia libertou a pintura, a IA pode libertar o design para explorar dimensões mais humanas. Quando apareceu a fotografia, muitos pintores viram que conseguia representar a realidade de uma forma muito mais eficaz, mas depois surgiram o expressionismo, o surrealismo — movimentos que exploraram o íntimo, o subconsciente, tudo aquilo que a fotografia não podia capturar.
Com a IA é o mesmo: vai obrigar-nos a explorar territórios mais humanos, mais profundos.
É uma visão otimista, mas acho que é a única forma sensata de encarar a evolução. Como qualquer ferramenta, a IA tem riscos. Mas se for bem usada, pode ampliar — e não substituir — o papel do designer.

Quando visita um país desconhecido, o que observa primeiro? As diferenças visuais ou as ligações invisíveis entre culturas?
Antes reparava mais nas diferenças. Mas, com o tempo, e depois de ter visitado cerca de 65 países, comecei a ver sobretudo as semelhanças.
A comida, por exemplo: há variações de arroz-doce por todo o lado, churros em quase todos os países. Mas também há padrões humanos universais — a dança, a música, o casamento, o riso. Há um livro que gosto muito, Human Universals, que fala justamente disso: comportamentos que atravessam culturas e nos mostram o quanto temos em comum.
E isso, para mim, é fascinante. As diferenças são fáceis de apontar, mas o mais bonito é perceber o que nos une enquanto espécie. Quanto mais viajo, mais me convenço disso: somos todos muito mais parecidos do que pensamos.
Como imagina o design de informação daqui a 10 anos?
A IA vai continuar a crescer, mas acredito que o futuro está também numa abordagem mais sensorial. A maior parte da nossa perceção está ligada à visão, mas já existem experiências que exploram som, tato e até cheiro para transmitir informação — como um projeto da Universidade da Califórnia que associa sons e aromas a bases de dados científicas.
Vivemos num mundo multissensorial, mas o design ainda depende quase só do visual. Espero que a visualização multissensorial se torne uma realidade nos próximos anos.
O que me preocupa é que continuamos a ensinar design sem falar de ética, psicologia ou ecologia — e isso tem de mudar. O design transforma o mundo, e com isso vem uma enorme responsabilidade.

Manuel Lima é designer de informação, autor e conferencista internacional, amplamente reconhecido pelo seu trabalho na visualização de dados e redes complexas. Foi distinguido pela revista Wired como uma das “50 pessoas que estão a mudar o mundo da visualização” e apresentou o seu trabalho em instituições como a TED, Harvard, MIT, Yale, NYU e ENSAD Paris.
É autor de quatro livros de referência — Visual Complexity (2011), The Book of Trees (2014), The Book of Circles (2017) e The New Designer (2023) — publicados por editoras de prestígio como a Princeton Architectural Press e a MIT Press, e está a preparar o seu quinto livro.
Atualmente lidera a equipa de design da Interos.ai, colaborando com organizações como a NASA, Apple e Disney. O seu percurso é guiado por uma curiosidade estrutural e por uma ética que coloca o design ao serviço do conhecimento, da transparência e da responsabilidade coletiva.
