Mirantes e “torres da laranja”

Estranhas construções em pedra, de aspeto defensivo e de formas maciças, trazem à memória a riqueza ubíqua das antigas quintas de laranja.

“Há por aqui umas curiosas construções que lembram pequenos templos astecas” – disse-me certa vez um viajante francês recentemente chegado a S. Miguel. A interrogação sobre a origem, os autores e as funções desempenhadas por essas estruturas líticas levou-me um dia, na companhia de um amigo, a percorrer os passos que nos conduziram ao encontro dessas estranhas construções de aspeto defensivo e de formas maciças, espalhadas por vastas áreas em diversas ilhas dos Açores e indexadas à riqueza ubíqua das antigas quintas de laranja.

A imaginação pode conduzir-nos, por vezes, a territórios longínquos. Onde o viajante francês encontrou evocações ameríndias, outros têm identificado vestígios de antigas civilizações, associando as diversas expressões de indústrias líticas a um imaginário pré-português dos Açores. Certo é que os mirantes e torres da laranja correspondem a processos técnicos e a uma ideia de forma perfeitamente enquadrados com a arquitetura tradicional açoriana podendo, no entanto, preceder, na cronologia, o período áureo da produção e exportação de laranja que, como se sabe, ditou o florescimento económico das ilhas – com particular destaque para a ilha de São Miguel – de c.1780 a 1860.

Pacientemente erguidos em pedra insossa (sem argamassa) por mestres paredeiros, os mirantes integram-se num sistema tecno-agrário que exigia a desprega dos solos para as plantações e, simultaneamente, visava o cumprimento de uma importante função como ponto de vigia para o mar e para o interior da quinta.

Terraços polarizadores de uma paisagem por vezes grandiosa, os mirantes e torres da laranja adquirem um carácter simbólico pela sua relação de domínio visual sobre o território, de onde se desprende uma clara conotação militar. Constituem por isso importantes elementos potenciadores de leituras sobre a paisagem, cujo capital turístico-recreativo não deve ser ignorado.

Texto: Isabel Albergaria
Fotos: José Maria Sousa

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