Histórias da aviação – A senhora professora que tinha medo de voar

Rogério Lopes foi piloto da SATA Air Açores entre os anos de 1970 e 1999. Passou pela frota Dakota, Avro, pelo B146 e terminou a sua carreira no British Aerospace ATP.

Nas quase três décadas de voos inter-ilhas, acumulou um número infindável de histórias que gosta de recordar. A “Senhora Professora que tinha medo de voar” é um destes episódios, que recorda com saudade e carinho.

Tratava-se de uma passageira que viajava todas as semanas entre Ponta Delgada e a Ilha de São Jorge, ilha esta onde havia sido colocada para lecionar. Tinha muito medo de voar e a entrada a bordo do avião era sempre vivida com muita angústia.

​​​​​​​Se existem particularidades nos voos inter-ilhas dos Açores, a mais tocante será, porventura, a familiaridade que se estabelece entre os funcionários da SATA e os passageiros. Embora o cockpit seja uma área restrita, a porta deste, na maioria das vezes, estava aberta. Nalguns casos até nem havia porta, apenas uma cortina.

Entre embarques, e sempre que o tempo permitia, os tripulantes de cockpit acompanhavam com o olhar, o vaivém constante dos passageiros, em cada escala. Em muitos casos, já os conheciam à distância, tantos eram os voos que efetuavam em conjunto.

Portanto, a Senhora Professora (como era carinhosamente chamada) já era conhecida, pois manifestava sempre um comportamento particularmente ansioso. Um destes dias, o Comandante Lopes perguntou-lhe se ela gostaria de viajar no cockpit, para que visse como é descontraído o voo. Pensou ele que a Senhora talvez perdesse o medo ao ver que nada do que se passa ali é perigoso. Felizmente, recorda Rogério Lopes, os voos em que ela se sentou no jumpseat do cockpit foram sempre tranquilos e nem os ventos que tantas vezes desassossegam a aterragem na Ilha de São Jorge perturbaram a Senhora. ​​​​​​​

Com o passar do tempo, e depois de muitas viagens, a Senhora Professora deixou de ocupar o lugar de jumpseat, pois quem já o experimentou sabe bem que, apesar da vista ser magnifica naquele exíguo espaço, o assento não é dos mais macios.

Ainda assim, sempre que a Senhora Professora se aproximava do avião para embarcar, a tripulação de cabine já conhecia o procedimento: “Vem aí a Senhora Professora que tem medo de voar! Vamos arranjar um lugar na frente para ela. Ela gosta de estar o mais perto possível do cockpit “. ​​​​​​​

Rogério Lopes não sabe precisar por quantos anos o “upgrade” informal se manteve, mas ficou-lhe a satisfação de saber que contribuiu para que esta passageira se sentisse mais tranquila e segura a bordo da SATA Air Açores. Afinal, ainda hoje, é para isso que trabalhamos dia após dia, em terra e no ar.

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