Horácio Arruda

Filho de pais nascidos na Relva e emigrados para o Canadá, em 1960, Horácio Arruda começou por sonhar com o teatro mas, hoje, tem a seu cargo a saúde pública da província do Quebeque.

Para este luso-canadiano, as dificuldades por que a família passou antes de emigrar foram bem mais significativas do que as que o próprio enfrenta, hoje, nos cargos que ocupa de diretor-nacional da saúde pública e de vice-ministro de um governo de mais de oito milhões de pessoas. “Foi necessário um grande sentido de responsabilidade e muita coragem por parte dos meus pais quando decidiram emigrar”, reconhece. Coragem que, segundo assume, talvez não tivesse tido, se se tivesse confrontado com idênticas circunstâncias: “Não sei se teria conseguido deixar a ilha…”.

O pai, Bento Arruda, trabalhador rural, e a mãe, Maria José Botelho, doméstica, emigraram em 1960 e instalaram-se na província do Quebeque, sem fazerem a mínima ideia do que os esperava. “Na altura, não havia  programas de apoio aos imigrantes. A minha mãe fazia-se entender por sinais…”.

Aos 22 anos, e já como estudante de medicina, Horácio Arruda visita pela primeira vez a Relva, S. MIguel: “Chorei ao entrar na igreja onde os meus pais se casaram”, admite. “Foi muito emocionante, para mim, pensar em como terá sido difícil eles emigrarem sem conhecerem o país e sem saberem a língua”.

Filho único, o seu sonho era o teatro. Porém, e tendo consciência de que a opção por uma vida artística criaria ansiedade nos pais, decidiu-se pela sua outra paixão, a medicina, especificamente pela oftalmologia. “Gostei muito, mas não estava na disposição de passar a vida toda a olhar para olhos!”, confessa. A saúde pública foi a alternativa que encontrou. O que, em 2012, o leva a ser convidado para o Ministério da Saúde e dos Serviços Sociais do Quebeque, ocupando desde então os cargos de diretor nacional e vice-ministro adjunto da direção da saúde pública.

Depois da sua primeira visita aos Açores, Horácio Arruda nunca mais se desligou das ilhas. No trabalho e na relação com os filhos perpetua os valores que herdou dos pais e que assentam no respeito pelo outro e na ideia de que dar é melhor do que receber.

Com novo contrato por mais três anos e sem data de reforma no horizonte, aos 56 anos de idade, Arruda afirma que tenciona prosseguir o seu trabalho de prevenção, nomeadamente das doenças que afetam as gerações mais idosas.

Texto: Humberta Araújo
Fotos: Humberta Araújo