Luís Rego – Da Publicidade para a Literatura

Podíamos apresentar o autor açoriano Luís Rego como redator publicitário ou escritor mas acreditamos que por possuir uma imaginação extraordinária que imprime um estilo muito particular a tudo o que faz, encaixa-se melhor no conceito de criativo.

Do seu percurso profissional fazem parte a multinacional McCann, onde trabalhou com algumas das maiores marcas internacionais como a Coca Cola,  a Fisher Portugal e  a HDG Açores, agência que participou na criação da Marca Açores e onde foi diretor criativo.

Em 2012 escreveu o livro infantil “O Arranha-Céus Horizontal” e no final de 2018 lançou “A Fajã de Cima. Ou como a bota de cano se tornou mais atraente que o salto alto”, um livro que transfigura a freguesia da ilha de São Miguel num lugar onde a imaginação e o surreal se movem no mundo real com naturalidade e desembaraço.


Como surgiu a ideia para este livro?

A ideia de escrever é consistente ao longo do tempo na minha vida e na minha carreira, principalmente devido à minha profissão, e esta vontade de escrever acabou por se consubstanciar neste livro.

Estava a viver na Fajã de Cima e na decorrência de viver lá e de ir ao café ao fim do dia fui entrando no espírito do local, onde há uma fusão entre o campo e a cidade.

Do café que frequentava via quem vinha na carrinha com as bilhas de leite e botas de cano do campo e depois quem vinha da cidade dos bancos e dos serviços públicos para viver na Fajã de Cima. Esta fusão criou uma espécie de 5ª dimensão onde essas personagens habitam todas no mesmo espaço geográfico e conduziu à ideia de criar uma série de histórias à volta da Fajã de Cima e das pessoas que habitam esse espaço.

A própria capa transmite essa ideia porque acaba por ser o símbolo de uma fusão entre a bota de cano e o salto alto.

A Fajã de Cima descrita no livro é contemporânea?

Vivi em dois espaços distintos na mesma casa da Fajã de Cima: na primeira fase entre os 13 e os 15 anos e depois aos 40.

Essas duas décadas entre uma passagem e a outra acabam por ficar compactadas num
espaço temporal que é a atualidade.

Por exemplo, a primeira história: “O Maurício, o melhor jogador de ténis da Fajã de Cima” passa-se no espaço geográfico atual da Fajã de Cima, mas a memória que tenho do Maurício, que é uma pessoa real, é um garoto de há 20 anos atrás.

Estão os dois tempos a viver um com o outro, sendo que o tempo é a memória da vivência naquele espaço.


Existem traços autobiográficos neste livro?

As histórias são puramente ficcionais por isso o livro não é autobiográfico, mas a história e a memória do autor é indissociável de um livro, a não ser no caso de livros técnicos.

Existe uma secção do meu cérebro onde vou coletando diversos objetos, sons e experiências sensoriais  e que uso para criar algumas texturas, ambiências e ideias.

Tenho um livro muito pouco conhecido que comprei à sorte da feira do livro. Está escrito na capa: “Livro Único” e é a história de um hipopótamo que assume o poder de um determinado país e toma medidas muito bizarras como tirar letras do alfabeto que não fazem falta como o h, e nacionalizar o ar como medida de defesa do Estado. Esse livro, com uma escrita ligeiramente surrealista, marcou-me profundamente.

Quais as principais semelhanças e diferenças entre o processo de criar um livro e publicidade?

O primeiro ponto de diferenciação que gostaria de mencionar é a liberdade. Nunca pensei que escrever um livro fosse um exercício de liberdade tão grande! Três ou quatro pessoas sugeriram que alterasse o texto em determinadas passagens e eu não alterei. Disse: “Isto vai ser como eu quero.” Nunca tinha vivido isso antes.

Por escrever há 20 anos como redator publicitário foi sempre difícil ter esta postura.
Tento convencer o cliente de que a minha proposta de escrita de uma peça é a melhor proposta para os objetivos dele, mas se o cliente me pedir para ter uma abordagem diferente, mesmo que eu acredite que aquela seja a melhor, sou obrigado a ceder em nome da ética e do brio profissional.

Por outro lado, a escrita publicitária por exigir uma certa nota de originalidade, de diferenciação e de exclusividade, obriga a trabalhar determinados processos mentais que facilitam uma escrita criativa e levemente surrealista. A minha profissão deu-me a experiência necessária para dar facilmente voz a diferentes personagens, o que é muito útil no livro.

Como é ser criativo nos Açores (tendo em consideração que viveu e trabalhou muitos anos em Lisboa)?

A capacidade de investir e o retorno do investimento são as principais diferenças. A escala de Lisboa é muito maior, o que torna mais desafiante trabalhar nos Açores. Mas o desafio criativo é igual.

Como no mercado dos Açores existe uma companhia aérea, companhias de viação e fábricas é possível emular o efeito criativo das grandes campanhas nacionais. Por exemplo, da mesma forma que tive o prazer de trabalhar para o Turismo de Portugal em campanhas à escala mundial, também tive o prazer de trabalhar para o Turismo dos Açores em campanhas à escala mundial. Também estive envolvido no projeto da criação da marca Açores, que é um projeto completamente transversal à região.

No que diz respeito à criação, as condições em grandes cidades são muitas vezes adversas ao ato de criar. Nos Açores existem condições mais propícias à criatividade. Já tive a ambição de ver nascer nos Açores um Hub criativo, já que tem uma localização privilegiada entre os Estados Unidos e a Europa. Existem nos Açores condições fantásticas, capazes de atrair os grandes criativos que estão neste momento a viver em Amesterdão, em Londres e Nova Iorque.

Quando surgiu a paixão pela escrita?

Sempre tive uma personalidade muito adversa a regras e quando tive que ler livros para os exames nacionais tive muitas dificuldades. A prova correu-me muito mal. O facto de ter ficado envergonhado com isso fez-me refletir sobre aquilo em que tinha errado.

Acabei por descobrir que ler e escrever me dava imenso prazer e fui desenvolvendo essa paixão já aos 18 anos.

Fiz a faculdade de Publicidade e Relações Públicas, entrei no mercado trabalho  e deu-se o clique com a obrigação de ter que escrever e ter que escrever bem para segurar o meu posto de trabalho. Tínhamos contas como a Coca Cola e a William Lawson’s, o que me ajudou a elevar bastante o nível de escrita.

Existe algum escritor ou obra que o inspire de forma especial?

“O Barco e o Sonho”, de Manuel Ferreira, é o conto açoriano que melhor teria a capacidade de ter repercussão a nível mundial e tenho pena que seja um livro tão circunscrito à nossa geografia de nascença. É uma grande referência de escrita para mim.

Também considero a forma de escrever de Afonso Cruz, com laivos de surrealismo, magnífica. Ele tem livros que formalmente parecem uma enciclopédia e só depois percebemos que é ficção.  E tem uma produtividade e uma qualidade incríveis.

Tenho uma referência mais de fundo que é o Gonçalo M. Tavares que distingue de forma tão clara o editar de escrever (dando mais importância ao “escrever”) que o que estamos a ler agora já tem 5 ou 10 anos. Tem um ritmo e capacidade de trabalho incríveis. Acho que é dos autores mais talentosos a escrever em português.

É possível viver da escrita em Portugal?

A ideia que tenho é que um autor vive de uma panóplia de serviços ligados à escrita, desde escrever para jornais, para programas de televisão ou  para outros autores.
O nosso mercado é pequeno, por isso dou muito mérito aos editores que estão a conseguir abrir o mercado brasileiro a alguns autores. É a diferença entre 10 milhões e 180 ou 200 milhões.

O Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, já está a conseguir entrar no mercado brasileiro, que é um mercado muito interessante. Bateu a portas, esteve presente em algumas feiras literárias no Brasil e deve ter encantado os brasileiros como nos encantou a nós com o seu humor e inteligência. A partir daí, é um rastilho.

Ele também foi ao programa do Jô Soares e colocou a plateia toda a rir de um tipo a falar português. Há ali muito talento!


Viajar é importante para o processo criativo?

Viajar é uma condição sine qua non para uma mente criativa. Não é para ir copiar o que vemos no exterior, mas para apreender novas referências e ambiências e, num determinado momento, reciclar esta informação. Viajando estamos a trabalhar a nossa cultura pessoal, o que se irá refletir naquilo que criamos.


Qual o seu tipo de viagem?

Quando projeto uma viagem é sempre a pensar nas exposições e museus que posso ir ver, principalmente ao nível da pintura mas também da música, cinema e fotografia. Faço a viagem em função do que posso ver no destino.


Prefere viajar sozinho ou em família?

Para fazer itinerários baseados em museus e restaurantes é difícil gerir viagens com 3 filhos. Mas, se fizer uma viagem num âmbito mais familiar, faço questão de levar os meus filhos mesmo que eles se portem menos bem, queiram tocar nos quadros, corram e gritem.

Fui a uma exposição no MAAT- Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia – com o meu filho António, de 5 anos, e foi magnífico ver o impacto que a exposição teve nele. Disse-lhe: “Parabéns, acabaste de ter a tua primeira aula de Educação Visual e tenho muito gosto de ter sido eu, o teu pai, a dar-te esta aula.” O meu filho ficou verdadeiramente inspirado com aquilo. Ele falava-me da exposição e fazia imensas perguntas.

Se pensamos em não levar as crianças porque elas não apreciam estamos redondamente enganados. O meu filho mais novo só tem um ano e é extremamente observador. Pode não perceber os conceitos associados, mas vai apreendendo as coisas à sua maneira.

Nos Açores chove muito e quem me quiser encontrar num domingo é só passar nos museus. Estarei no Museu Carlos Machado com os meus filhos: no Núcleo de Santo André, no Núcleo de Santa Bárbara e no Núcleo de Arte Sacra. Temos também o Centro de Artes Contemporâneas da Ribeira Grande que, a nível mundial, é um dos locais mais espetaculares onde eu já estive.

Há nos Açores um roteiro cultural que é possível fazer gratuitamente ao domingo e que coloca os nossos filhos em contacto com a arte e com artistas açorianos e nacionais.

O espólio de arte contemporânea do Museu Carlos Machado é fabuloso, com obras de artistas como Júlio Pomar, Júlio Resendes e Almada Negreiros.


Um destino para ir em família.

Paris ou Orlando por causa da Disney World e Eurodisney
Acertando nas idades é uma viagem em família muito gira. Os miúdos crescem a serem impactados pelas histórias e quando vão, adoram.
Sozinho iria para Nova Iorque por causa da sua componente cultural e artística.

Também gostava de fazer uma viagem por Itália, de Milão a Nápoles, numa carrinha, de chinelos, que só acabaria quando faltasse o dinheiro e a gasolina.


Onde é que gostava que a Azores Airlines o levasse?

Adoraria entrar num avião da Azores Airlines  aqui nos Açores e sair em Istambul. A cidade fascina-me por ter o misticismo do Expresso do Oriente.

Quais os seus projetos para o futuro a nível de escrita?

Acabei de participar na terceira edição da Revista Grotta e tenho um livro infantil já escrito que gostaria de publicar ainda em 2019, sob um conceito comercial muito forte, pois gostaria que fosse acessível a qualquer família. 

A médio prazo, quero avançar para a escrita de uma história com uma ideia muito interessante na sua base. A história já está escrita mas como não estou satisfeito com o resultado, quero reescrevê-la.

Sei que vou escrever muito mais coisas, só não sei quais. Tenho a certeza que alguns destes escritos irão também ao meu encontro.