Passageiro Frequente: Júlio Isidro

“Os Açores, para mim, são inesgotáveis!”


Com 66 anos de carreira, Júlio Isidro tornou-se mais do que um nome histórico da televisão portuguesa: tornou-se uma memória viva do próprio meio. Foi testemunha das primeiras décadas da RTP, reinventou formatos, acompanhou gerações, e continua, aos 81 anos, a aproximar pessoas com a mesma curiosidade e paixão de sempre. Visitante frequente dos Açores, regressa sempre com o olhar renovado — atento ao que ainda falta ver, ao que continua a descobrir e ao que, inevitavelmente, volta a surpreendê-lo.

Lembra-se da sua primeira viagem de avião?
A primeira vez que andei de avião nem foi bem uma viagem — foi uma voltinha. Saímos da Por tela numa Auster, um monomotor de asa alta, sobrevoámos a Serra de Sintra e aterrámos. Eu tinha 13 anos.
O primeiro voo comercial veio pouco depois, num Lisboa–Porto, a bordo de um SkyMaster de quatro motores. Serviram uma refeição num voo curtíssimo, e para um rapaz de 14 anos foi inesquecível.

Viajar ainda tem sabor a descoberta ou já se tornou um ritual?
Viajar nunca se tornou rotina. Para mim, cada voo é único. Não encaro o avião como mero transporte. Venho frequentemente a São Miguel nos últimos anos e, mesmo assim, é sempre uma grande emoção o instante em que a ilha começa a surgir no horizonte. É um misto de reconhecimento e surpresa. Descobrir a ilha nunca acaba.

Há destinos aos quais sente sempre vontade de regressar?
Seria impossível não dizer os Açores — porque é o que sinto verdadeiramente. Este arquipélago tem uma natureza inesgotável: paisagens que se desdobram, lugares que surpreendem, uma autenticidade difícil de encontrar noutros destinos. Quero muito conhecer o Corvo, onde ainda não estive. E, apesar de já ter estado em várias ilhas em trabalho, quando se trabalha nunca se vê tudo. Regressar para ver com tempo é outra coisa. Itália é outro destino que me fascina pela mesma razão: nunca se esgota.


Que relação tem com os Açores?
Lembra-se da primeira vez que visitou o arquipélago? Lembro-me perfeitamente. A primeira vez foi na Terceira, há muitos anos. Depois vieram outras ilhas, muitos programas, incluindo o último programa de televisão no Coliseu Micaelense antes da sua recuperação.
O que distingue os Açores é a capacidade de surpreender. Não há um único “ponto especial”: há muitos. De curva para curva, a paisagem transforma-se como se alguém levantasse cenários sucessivos. Quero muito percorrer o interior de São Miguel de carro com a minha família, com tempo, para viver essa sucessão de maravilhas naturais.

Após tantas entrevistas que já fez, houve alguma que o tenha surpreendido verdadeiramente?
Fiz mais de mil entrevistas em Portugal e várias centenas no estrangeiro. A entrevista à Eunice Muñoz foi particularmente terna. Com o Ruy de Carvalho, todas as conversas têm um sentido de humanidade muito forte.
Lá fora, recordo a grande Jessica Tandy, uma conversa tão afetuosa que lhe disse que gostaria que fosse minha mãe. Também entrevistei Richard Gere. E talvez a mais divertida tenha sido com o Dustin Hoffman, acabámos numa brincadeira a medir quem tinha o nariz maior.
Foram centenas de entrevistas, e quase todas deixaram uma ternura especial.


De onde vem a energia para tantos projetos e interesses?
Às vezes nem sei se é energia – acho que é paixão. Dou por mim empurrado para situações inesperadas. Recentemente fui a uma estreia de cinema, sobre pingue-pongue, e acabei a jogar com campeões olímpicos… eu, que não pegava numa raquete há mais de 50 anos! No fim até comentei: “Estive a fazer uma atividade desportiva e não me doeu nada.”
Quando fazemos algo com prazer, o corpo colabora, a energia aparece porque tem de aparecer. E acredito que um dos segredos para viver bem é manter a curiosidade. Enquanto houver curiosidade, há movimento.


O aeromodelismo acompanha-o há muitos anos. O que encontra nesse universo que não encontra em mais lugar nenhum?
O aeromodelismo é um desafio permanente. Construir um modelo testa as minhas capacidades cognitivas, a motricidade fina e dá-me uma tranquilidade difícil de explicar. É um exercício de precisão. Continuo a ir a Inglaterra competir com os meus amigos ingleses — tenho muitos prémios dessa área. A minha mulher participa comigo todos os anos: construo os modelos e às vezes é ela quem fica à minha frente. É uma alegria partilhada.


O que significa ser Embaixador Cultural do Coliseu Micaelense?
É, antes de mais, uma surpresa muito feliz. A minha ligação ao Coliseu nasceu de forma natural: fui convidado para apresentar o Dia Mundial do Fado, numa edição dedicada ao meu amigo José Pracana. Correu tão bem que fui novamente convidado. Já apresentei o evento três vezes, sempre com muito gosto.
Foi daí que nasceu uma relação afetiva com a casa. O Coliseu é lindíssimo, foi recuperado de forma exemplar e está a ser utilizado com enorme inteligência cultural. Estive no lançamento da programação deste ano e fiquei impressionado com a qualidade e a variedade: uma programação cultural e de entretenimento absolutamente extraordinária.
Sempre que venho, a sala está cheia — e isso diz muito sobre o público micaelense e o orgulho que sente pelo seu Coliseu.

Um comunicador completo
Ao longo de seis décadas, Júlio Isidro construiu uma carreira marcada pela curiosidade, pela versatilidade e por uma vontade constante de aprender. Formado em cinema e televisão pela UCLA, realizou documentários, ensinou fotografia e cinema no Exército e colaborou com a Walt Disney Company — experiências que moldaram o olhar rigoroso e criativo que ainda hoje o define. É autor de mais de dez livros infantis e de uma autobiografia, escreveu, apresentou e criou conteúdos em áreas tão diversas como música, humor, cultura e entretenimento. Participou em publicidade, imprensa, eventos e teatro, sempre com a mesma generosidade comunicativa que o público reconhece.


Prémios e distinções
• Grã-Cruz da Ordem do Mérito (2020) – Presidência da República
• Comendador da Ordem do Infante D. Henrique (2006)
• Medalha de Mérito Cultural (2020) – Governo de Portugal
• Medalha de Mérito Cultural da Cidade de Lisboa (2024)
• Globo de Ouro – Mérito e Excelência (2025)
• Recebeu ainda mais de 40 prémios nacionais e internacionais ao longo de seis décadas de carreira.

Relação com os Açores

• Homenageado publicamente no Coliseu Micaelense em janeiro de 2026, num momento que assinalou os seus 66 anos de carreira.
• Embaixador Cultural do Coliseu Micaelense
• Visitante regular de São Miguel
• A bordo da Azores Airlines, concretizou um sonho antigo: visitar o Canadá

Carreira em números
• 66 anos de carreira
• 15.000 horas de televisão
• 35.000 horas de rádio
• 1000+ entrevistas nacionais
• 300+ entrevistas internacionais
• Milhares de conteúdos criados em entretenimento, cultura, humor e música

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