Presença portuguesa em Montreal: dos painéis de azulejos, aos aromas do vinho e da sardinha

Com a chegada da primavera, as ruas de Montreal animam-se. A pouco e pouco, as árvores enchem-se de folhagem e os/as moradoras dão início ao típico ritual da estação, enchendo de colorido os pequenos jardins, as varandas e os lugares públicos. Aqui e ali, começa a plantação de flores sazonais, que complementam as espécies anuais, que com o desaparecimento da neve, mostram as suas faces desconfiadas.

Esta é uma das mais interessantes estações do ano para visitar a cidade. A partir de abril, ao acolher dias mais longos e temperaturas mais amenas, Montreal anima-se com o frenesim típico da terra, que renasce, depois de um longo sono.

Para quem se interessa pela portugalidade, Montreal é uma destas urbes canadianas, onde a cada esquina, a presença lusa se faz sentir. Ela faz parte da vivência dos seus habitantes, que convivem com a gastronomia e a cultura portuguesas.

Percorrendo os bairros mais típicos, onde a presença lusa mais se faz sentir, é possível descobrir restaurantes, pequenos cafés, charcutarias, mercearias e peixarias, que os naturais de Montreal adotaram, incluindo nos seus hábitos diários, visitas a estes locais, onde se descobrem os pratos e os sabores típicos ‘de la bonne nourriture portugaise.’

As gentes de Montreal, conhecem também datas e eventos específicos da comunidade, durante as quais os portugueses celebram as suas festas religiosas, tais como o Espírito Santo, o Santo Cristo ou ainda o Dia de Portugal.

Desde inícios da década de 50, mas com maior peso a partir dos anos 60, que as gentes desta urbe alimentam uma relação muito estreita com a comunidade portuguesa, a qual tem deixado a sua marca, não só na vivência sociocultural do lugar, mas também na sua geografia, toponímia e património imóvel.

A multiétnica cidade de Montreal, alimenta um enorme carinho pela lusofonia, e não esconde uma comprometida curiosidade por tudo o que seja português, revelando, ao mesmo tempo, um profundo conhecimento do país, não fosse o Quebeque, uma das províncias que mais viaja para Portugal. É raro encontrarmos um natural desta cidade, que já não tenha visitado Lisboa.

Hélène Sirard, uma quebequense de raiz, a viver em Montreal, visitou pela primeira vez os Açores em 2017. Ela é uma das muitas cidadãs desta província, fascinada por Portugal, muito particularmente pelo arquipélago açoriano.

“Para quem gosta de ilhas, os Açores são jardins floridos rodeados por um oceano repleto de vida. Fiquei fascinada pelo arquipélago, depois de ter visto uma reportagem sobre ilhas, a qual destacava, as ilhas açorianas. Obviamente, que do ponto de vista geológico, o tumultuado passado dos vulcões torna a paisagem única, com essas pedras de basalto que são encontradas em toda parte, especialmente na arquitetura. As caldeiras, parte de um arranjo natural e primitivo, são fascinantes. E o que dizer das pessoas, sempre atentas às necessidades dos turistas? ”

Ao longo dos anos, a relação da comunidade portuguesa com os habitantes da cidade, tem permitido também uma aceitação da cultura açoriana, que aqui conheceu um espaço acolhedor e onde se integrou e floresceu.

“Depois de conhecer um português em Montreal e de o ter ouvido falar dos Açores com nostalgia, senti vontade em fazer o percurso inverso. Fiquei emocionada com esse lugar, ainda pouco povoado, com as fascinantes tradições de adoração e dedicadas ao Espírito Santo, as procissões de penitentes que se encontram nas estradas do campo, as magníficas capelas (Impérios), as pequenas casas de pescadores, alinhadas ao longo do mar, o seu passado e o seu artesanato muito original. E, as vacas pastando nessas enormes colinas verdes! Compreende-se a saudade das gentes dos Açores, e a sua vontade, de o ser, aqui também.”.

O selo português é particularmente visível, nos tradicionais bairros, onde muitas habitações foram reconstruídas, um trabalho que valeu um reconhecimento sentido de agradecimento aos trabalho dos portugueses, por parte da Ordem dos Arquitetos do Quebeque, em 1975.

Hoje, muitas destas habitações, já nas mãos de novos inquilinos, guardam ainda a marca desta pertinência lusa, ao conservarem muitas das criações em azulejo, retratando santos e padroeiros, numa marca de religiosidade e de pertença. Estes painéis de azulejos, pintados à mão, encontram-se em muitas ruas do chamado “Plateau Mont-Royal”.

A tradição de fixar azulejos com imagens de santos nas fachadas das residências, distingue muito a casa portuguesa, sendo fácil reconhecer por vezes a origem dos seus proprietários (se das ilhas ou do continente), consoante o santinho escolhido.

Com a saída dos portugueses para zonas limítrofes da cidade, o costume foi também emigrando. Normalmente compostos de 4 ou seis azulejos dispostos na diagonal, estes painéis preenchem o espaço de uma moldura elevada, que parte da própria parede. De realçar, que em Portugal continental, depois do terramoto de 1755, este costume solidificou-se, como forma de procurar a proteção divina.

Esta marca física da nossa passagem por Montreal, é tão mais relevante, que muitos estudantes locais se têm interessado pelo estudo da influência lusa no Plateau, tendo o tema, servido de base de mestrado para dois jovens da Escola de Arquitetura da Universidade de Montreal: Félix Rousseau e Arnaud Dufort, alunos de Claudine Déom, do departamento de conservação do património construído, daquele estabelecimento de ensino.

Entre as décadas de 60 a 70, os portugueses começam a habitar a zona até então judaica. Durante os anos 70, mais de 12 000 portugueses viveram na área. A partir dos anos 90, a maioria dos habitantes portugueses de Montreal começa a deixar o Plateau, espalhando-se por Laval, La Salle, Brossard e Longueuil.

“A época em que a emigração portuguesa, atinge o seu auge, ela escolhe se instalar no bairro St. Louis, um bairro relativamente pobre na época. Os portugueses, são os principais autores da renovação e reconstituição das pequenas casas e plexes, que hoje são o orgulho da cidade, e imprimem um charme muito particular ao Plateau-Mont-Royal. Estas intervenções, são a oportunidade para que a comunidade portuguesa deixe a sua marca no património constituído, e assim se apropriar, através dos elementos materiais e imateriais, nomeadamente ‘uma imagem religiosa em azulejo à sua porta, uma fachada colorida, uma horta, o aroma de sardinha e, no outono, o doce cheiro do vinho, da sua herança. Imóveis reconstruídos com materiais daqui, mas enriquecidos com lembranças do passado, o que os torna numa casa viva,” adiantam estes universitários, autores do trabalho, “La communauté portugaise de Montréal”.

Mas há ainda o património religioso, refere Arnaud Dufort e Félix Rousseau, nomeadamente a Igreja Santa Cruz, no centro do Plateau, construída por portugueses, assim como uma forte presença comercial, que não pode passar despercebida. “As pequenas mercearias, as charcutarias, as pastelarias e peixarias. (…) Do Parque de Portugal, à simbologia do galo de Barcelos, aos murais e as suas caravelas é possível descobrir a presença portuguesa nesta cidade. ”

Sem dúvida, que os azulejos, que enfeitam as casas, alguns dos quais aqui representamos, são uma das muitas marcas visíveis da lusofonia aqui.

Portanto, se este ano visitar Montreal, não deixe de visitar o bairro português, e reconheça-se nos pequenos recantos, onde pode ler a rica história da imigração portuguesa no Quebeque.

Texto: Humberta Araújo