Uma família Açoriana a velejar pelo mundo

Armindo tem 52 anos e é skipper profissional desde os 21. Joana, de 36 anos, trabalhava como psicóloga na área da intervenção social e comunitária. Têm dois filhos: Benita, de 7 anos e Leonardo de 4.
São uma família feliz e unida, como tantas outras, com uma particularidade que os coloca num grupo muito restrito de pessoas: estão a dar a volta ao mundo de barco. São  a primeira família açoriana a fazê-lo.

A execução desta viagem implica vários sacrifícios, como viver de uma forma muito minimalista e com tudo racionado: espaço, roupa, livros, utensílios que facilitam tarefas domésticas, brinquedos e até água potável. Implica ainda o desafio de raramente se estar sozinho. No entanto é uma experiência única e muito compensadora. Nas palavras de Joana “ficar em consonância com os filhos, voltando a ver o mundo com os olhos de uma criança” é um dos maiores benefícios desta aventura.

Para Armindo e Joana esta viagem é mais do que a realização de um sonho comum, é uma forma alternativa de criar os filhos. O seu objetivo é educar através da união familiar, do convívio com outras culturas, e do contacto direto com a diversidade que o mundo tem para oferecer. Têm esperança de incutir nas crianças o respeito pelo ambiente, a noção da importância da ecologia, resiliência para superar desafios, compaixão e tolerância pelo próximo, e a consciência da riqueza proporcionada pela diferença.

Partiram no dia 6 de novembro de 2016, para uma viagem de 2 anos, e já passaram por Santa Maria, Madeira, Canárias, Cabo Verde, Caraíbas, Colômbia, Panamá e Polinésia Francesa.

A viagem está a decorrer de acordo com as vossas expectativas?
Em alguns dias sim e noutros não!
Há dias tão cansativos e tão frustrantes que nos fazem perguntar se valerá a pena continuarmos e depois vêm dias que superam as nossas expectativas e que nos fazem sentir fortes, realizados e privilegiados.
Ainda assim, cada vez mais, tentamos evitar criar expectativas, que nos fazem sonhar mas são perigosas!

Qual foi o momento mais desafiante pelo qual passaram?
Quando navegámos em águas venezuelanas, aconselharam-nos a não parar naquele incrível país dada a sua difícil situação atual. Disseram-nos que tinham sido reportadas situações de roubos e pirataria e por isso decidimos apenas parar nas ABC islands (Aruba, Bonero e Coraçao). Certa noite, o Armindo percebeu que estávamos a ser seguidos por um barco sem identificação. Durante cerca de 4 horas ele ocultou a sua preocupação a bordo, até que decidiu contar-me. Os meninos não souberam de nada. Após 5 horas de grande ansiedade entrámos em contacto com a embarcação, supostamente inimiga, via rádio, pois a fuga estava fora das nossas possibilidades. Preparámo-nos para lhes entregarmos tudo o que pedissem em troca de paz. E não podíamos ter ouvido melhor resposta à nossa chamada: –
“Benyleo, Here, U.S. Navy patrol!”

Alguma vez tiveram vontade de desistir?
Eu, Joana, sim, o Armindo não. Temos personalidades diferentes, responsabilidades diferentes e prioridades diferentes. Viver num barco, a viajar, é abdicar de diversos confortos, muitos dos quais nem valorizamos porque vivemos com eles a vida toda e é abdicar, ainda que temporariamente, de estar com aqueles com quem queremos partilhar a nossa vida.

Do que é que sentem mais falta?
Acima de tudo, todos sentimos muita falta da família e dos amigos!
Em particular, eu, Joana, sinto falta de uma máquina de lavar roupa e de livros em português, o Armindo sente falta de um amigo velejador que o ajude a descontrair e andar mais relaxado relativamente à navegação à vela, como por exemplo, o Paulo Menezes, atual presidente da SATA, com quem o meu marido adora navegar! A Benita diz que sente falta da sua escola (Colégio do Castanheiro), de ter mais livros de histórias e de lapas grelhadas, o Leonardo sente a falta da sua escola (Estufinha)!

Qual o principal requisito para encetar esta aventura com duas crianças?
Tanto para viajar como para educar crianças são necessárias grandes doses de paciência, tolerância e esperança. Esperança que amanhã seja mais fácil!
Ao decidirmos enveredar por esta aventura não esperávamos viver dois anos de férias, naquele conceito de descanso anual que antes vivíamos. Quisemos experimentar viver o dia-a-dia de outra maneira, e no dia dia-a-dia há momentos difíceis, trabalhosos e de muita dedicação.

Como têm lidado com aqueles momentos mais desafiantes que as crianças pequenas, naturalmente, proporcionam, como as birras?
Conforme lidaríamos se estivéssemos em terra, nos Açores – o melhor que podemos!
A diferença é que nos Açores, parte do dia as crianças estão na escola, às vezes em casa de família e com muitos amigos, e agora estão sempre connosco. É muito mais intenso! Mas se por um lado é mais cansativo, por outro sentimos que assim há uma maior facilidade em controlar algumas influências indesejáveis, como a publicidade, o consumismo e a distorção dos valores.

O que é que uma criança aprende a viajar que nunca aprenderia na escola?
Estamos a fazer uma viagem marítima de 2 anos e nesta viagem os nossos filhos estão a ter oportunidades diferentes do que teriam se vivessem em terra. Estão a aprender tudo o que se relaciona com o mar de forma intensa, desde a vela, navegação, surf, windsurf, pesca, natação, meteorologia, geografia, gestão de energia e água, etc. Por exemplo quando chove, os dois desatam numa correria para encher os garrafões de água, que mais tarde enviam para o depósito com o recurso a mangueiras e a determinados conceitos básicos de hidráulica.  Também estão a aprender um pouco da história, da flora, da fauna e das tradições culturais dos sítios que visitamos. E a aprender três línguas ao mesmo tempo: inglês, francês e espanhol, porque é assim que nos vêm comunicar, porque necessitam de entender e de se fazer compreender quando brincam com as crianças locais. E estão a ter a oportunidade de contactar e aprender a respeitar e a admirar parte da incrível diversidade cultural humana.

Que valores esperam passar para os vossos filhos com esta viagem?
Com esta viagem esperamos educar os nossos filhos para uma maior consciência ambiental, com o devido respeito pela diversidade cultural e de raças, esperamos que reconheçam os perigos do consumismo, quer a nível ambiental como a nível pessoal, que desenvolvam a sua generosidade e altruísmo, que saibam manter-se honestos em todas as ocasiões e que valorizem a amizade e os laços familiares, como sendo a maior riqueza que devemos conservar.

A Joana estava preocupada com o facto de estarem 24 horas por dia juntos, todos os dias. Como tem sido?
Este é, para mim, o maior desafio desta viagem. Naturalmente os conflitos surgem e não podem ser adiados. Sentimos falta de um espaço individual e cada um tenta encontrar as suas estratégias. Aqui é comum ouvir-se um “agora preciso estar sozinho”. Precisamos aprender a controlar melhor as nossas emoções, melhorar a nossa capacidade de comunicação, desenvolver a tolerância e o respeito pela diferença. Não é fácil!

Como é viver com tudo (água, comida, roupa, objetos pessoais) tão racionado?
É uma adaptação que demora algum tempo. Katrina, uma amiga grega, velejadora, disse-me que demorou um ano e meio a adaptar-se à vida a bordo. Parece-me que as nossas crianças já estão totalmente adaptadas, o Armindo, com toda a sua experiência de velejador também viu esta tarefa mais facilitada. Eu ainda estou em esforço…

“Já não há tempo para pressas, para saber para onde temos de ir e o que temos de fazer a seguir. Agora, tal como eles, não sabemos bem para onde vamos e o que vamos fazer a seguir.” Isto é bom ou angustiante?
Para mim esta é uma boa sensação. Em terra sentia-me frequentemente stressada com as horas, as pressas e as múltiplas tarefas rotineiras. Agora, embora tenhamos rotinas, estas são bem mais flexíveis e, tal como as crianças, vivemos uma vida bastante mais imprevisível e surpreendente.


Mais do que uma aventura, é um projeto que envolve questões ambientais e sociais. Têm conseguido atingir o vosso objetivo de sensibilização ambiental com sucesso?
Infelizmente não tenho feito tanto quanto gostaria devido à barreira linguística, à falta de tempo e à dificuldade no estabelecimento de parcerias. Agora percebemos que dois anos é muito pouco tempo para uma viagem destas e para alcançar os objetivos que definimos.

O que levam na caixa dos Açores que tenha gerado mais curiosidade junto das pessoas que conheceram?
Todas as pessoas que conhecemos e a quem mostramos um pouco dos Açores ficam encantadas, deixando-nos a promessa de uma visita. Todas! E, na maioria das vezes, basta mostrar um livro publicitário do turismo dos Açores. Temos um olho de um espadim azul apanhado nos Açores, que abre a boca de qualquer um, e um livro do artesanato dos Açores que também tem surpreendido muita gente. Fazemo-lo com a paixão que temos por essas ilhas, que fazem frente aos sítios mais especiais que temos visitado. Morávamos num paraíso, é unânime!

O que têm na outra caixa, aquela que guardará memórias dos sítios por onde têm passado?
Nessa linda caixa elástica com a forma de coração, guardamos os emails e os sorrisos dos amigos que fizemos, receitas e influências gastronómicas, as fotos e as histórias que vivemos, as músicas que aprendemos, os abraços que demos, o quanto crescemos!

Qual o local mais surpreendente que encontraram? Porquê?
Todos adoramos San Blaz (Panamá) e os atoles do arquipélago Tuomotu (Polinésia Francesa) onde, para além da grande beleza submarina, o plano de água permite a pratica de desportos náuticos com grande segurança, especialmente para mim e para os meninos que ficam muito mais à vontade para se aventurarem.
A Benita adorou Mayrau, uma das Grenadines (Caraíbas), por ser tão paradisíaca e despoluída.
Para o Armindo, houve um local que o surpreendeu muito, Daniel’s bay em Nukuhiva (Anse Hakatea, Polinésia Francesa) onde ele fez um trilho de duas horas até uma cascata (Hakaui) e se sentiu como se estivesse no filme Avatar. Este lugar especial também tinha uma excelente onda para ensinar as crianças a surfar. Todos admiramos a paz e a fartura das ilhas Marquesas.

Onde foram melhor recebidos? Porquê?
Estivemos um mês em Cabo Verde, onde fomos muito bem tratados, em especial pelo amigo Ezequiel Conde e pelo Tom que nos cedeu o seu lugar na marina sem nos cobrar nada.
Aqui, na Polinésia Francesa, as pessoas têm uma forma de estar muito tranquila e hospitaleira. Basta esticar o polegar para apanhar uma boleia e frequentemente levam-nos onde queremos mesmo que isso envolva um desvio do seu destino. Por várias vezes e em várias ilhas ofereceram-nos fruta, permitindo-nos apanhar a que quisemos. Os locais mostram interesse em saber de onde vimos e para onde vamos, convidam-nos e informam-nos das festas tradicionais. Sentimo-nos muito bem aqui e vem-nos à lembrança algumas ilhas dos Açores, onde tudo isto também acontece!!

Durante esta viagem, existiu algum sítio que vos parecesse um bom local para se instalaram a longo prazo?
Temos conhecido vários locais onde gostaríamos de ter passado temporadas maiores, como Mayreau (Caraíbas), Cartagena (Colômbia), San Blaz (Panamá), Marquesas (Polinésia Francesa) mas a vontade de voltar ao Açores está sempre presente!


“Somos portugueses, as saudades apertam frequentemente, mas a curiosidade e vontade de ir por mares nunca antes navegados, por nós, continua a falar mais alto. “

Ser navegador está inscrito no nosso DNA?
Infelizmente, em quase um ano de viagem, ainda não encontramos navegadores portugueses, esperamos encontrar agora no Tahiti um casal amigo (Rafael e Helena) e uma família com os quais temos comunicado para proporcionar o encontro. Isto poderá ser azar ou revelar o quão afastados estão os portugueses da navegação. As pessoas surpreendem-se quando dizemos que somos portugueses o que quer dizer que somos raros…. Todavia tenho sido contactada por várias famílias com ambição igual à nossa, poderá esta realidade estar a mudar?!  Espero sim.

Certamente que, depois de uma experiência tão rica como esta, a vossa visão do mundo vem-se alterando. Já sentem essas alterações?
Sentimos que o mundo é tão grande e que tanto ficará por conhecer, a maior parte!… Para já, sentimos que estamos apenas a ter uma amostra e que nada conhecemos deste incrível planeta!!