Vinho capital

Os vinhos do Pico são especiais porque nascem da pedra e da lava. São um património singular, que fez do concelho da Madalena a cidade do vinho de 2017.

Entre um reticulado de quilómetros e quilómetros de curraletas de pedra solta organizadas de forma geométrica e com altura equilibrada para proteger as videiras do vento e do rocio do mar, nascem na ilha do Pico alguns dos melhores vinhos nacionais e internacionais.

Produzidos de forma singular há séculos, sem adição de álcool, mas com uvas bem maduras, associadas à alma e à paixão do vitivinicultor, os vinhos do Pico são procurados e reconhecidos em alguns dos principais restaurantes do mundo num sinal claro do novo fulgor que o setor atravessa.


São vinhos de pedra, com sabor fresco e único, desenhados a partir das castas de verdelho, arinto dos Açores e terrantez do Pico, onde predomina o sabor do mar e do vulcão resultante do plantio nas fendas do chão de lava. São lajidos e constituem um autêntico ‘terroir’.

O legado vitivinícola do Pico começou a ser construído no século XV pelas ordens religiosas, que transportaram para os solos vulcânicos o conhecimento adquirido em outras paragens no cultivo da vinha e da figueira.

Depois do abandono das vinhas no século XIX, devido às devastadoras pragas, o setor volta agora a dar a mão ao desenvolvimento da ilha, surgindo como o motor da economia e o impulsionador do enoturismo.

Foi em 2004 que o Comité do Património Mundial reunido em Suzhou, na China, aclamou a paisagem da vinha do Pico e o secular cultivo tradicional em currais de pedra como património da UNESCO considerando-as um extraordinário legado feito pelo homem.

A reabilitação de quase mil hectares de vinhas, que tinham sido engolidas pelo mato, está a mudar do verde de incensos e faias para o negro da rocha basáltica, mostrando uma rendilhada paisagem que continua intacta.

Hoje, visitar o Pico é por isso sinónimo de contactar com um vasto património de vinhos de qualidade certificada e premiados internacionalmente, que testemunha o trabalho de gerações de pequenos produtores que, num ambiente extremamente difícil, criaram um modo de vida sustentável e a maior epopeia de pedra alguma vez construída pela mão humana.

Texto: David Borges
Fotos: Município da Madalena